


Na rua da metrópole, uma voz feminina, a plenos pulmões, amaldiçoa a cidade e implora pela misericórdia divina que não vem. Brada que já não agüenta mais a dor da solidão, da fome e das calçadas frias. Vocifera que seu pai tomou-lhe o lar e a filha, a quem violenta. E os passantes continuam, como tais, apenas passando, alguns correndo contra os ponteiros do relógio, outros fugindo de si mesmos.
- Louca!
Nos edifícios, abrem-se algumas janelas, onde vozes masculinas e femininas mesclam-se, algumas zombando da miséria e da insânia assim tão publicamente expostas, outras censurando o desvairo escandaloso e incômodo.
- Chame a polícia!
Das ruas e das janelas, naquele momento, todos estão aptos a julgar, e condenar, o desespero descontrolado. Ao menos assim, não precisarão olhar para suas próprias paupéries interiores…
Não consigo oferecer muita resistência à uma abordagem que passe por cultura ou arte; mas, raramente tenho algum dinheiro para oferecer (o máximo a que posso chegar é atenção e interesse…). Muitas vezes ainda passo batido, tentando andar mais rapidamente do que os ponteiros do relógio.
E lá vem aquela sensação de impotência diante do fracasso de não poder fazer mais por esse pessoal do que me foi feito, em um tempo mais alternativo ou contra-cultural, em que as idéias talvez fossem mais claras do que são hoje.
Não sei exatamente os porquês de cada um deles; mas, mesmo assim, sou sempre tomado pela admiração. Enquanto houver idealistas revolucionários haverá esperança.
Noto, agora, que me referi ao submundo da contra-cultura como “eles”…
Uma frustração ainda maior toma conta, ao perceber que já aceitei não ser mais parte desse “eles”.
Será que terei que olhar o reflexo no espelho como o de mais um vendido, que se deixou devorar pela Máquina devastadora de almas?
Voltando de mais uma viagem.
Estas foram as primeiras férias verdadeiras dos últimos sete anos e, talvez, as melhores de minha medíocre existência.
Fiz algumas coisas que há muito não fazia (tomar banho em rio, por exemplo), outras que nunca havia feito (entre elas, descer para a piscina em um escorregador de 30m).
Uma semana em Itapoá, uma em Caiobá e uma em Antonina e Morretes, com retornos estratégicos a Curitiba, para lavar as roupas, comprar algumas coisinhas e pagar outras, jogar um pouco de PS2, ir ao cinema…
Algumas experiências já estão aí no Diário de Férias (I, II, III, IV e V) e no Fui ali e já volto… As outras vou postando aos poucos.
Agora, com sua licença, preciso reorganizar as coisas, porque tudo que é bom sempre acaba e amanhã recomeçam os trabalhos letivos na escola…
Ó:
Uma brincadeira legal pra matar o tempo na frente do monitor.
Ligue o som, acione aqui, concentre-se e não deixe o ponto azul tocar nas paredes. Cada fase vem com um nível de dificuldade maior.
Depois me conte o que achou.
Caso interesse, mudei o título da série Diário da semana de Natal para Diário de férias.
Na verdade, não há um motivo muito claro pra isso. Deu vontade.
Sexta-feira, 12 de janeiro de 2007.
Em uma tarde típica de final de ano, no primeiro terço do verão meridional, com céu muito azul e forte calor, estava sentado à beira da piscina, à frente de um pote, já devidamente vazio, de sorvete, apenas contemplando a movimentação de crianças, jovens e adultos ao redor daquelas festivas, brilhantes e azuladas porções circulares e quadradas de água.
Notou que seu filho mais velho, contando então treze anos, estava entre alguns amigos e amigas, todos apenas com as cabeças para fora da água, em meio a uma muito animada conversa. Mais atentamente, o pai observou que uma das meninas do grupo estava às costas de seu filho, agarrada a ele, há já um bom tempo. Nos momentos que se seguiram, pareceu-lhe haver ali um quê além do mero bate-papo entre jovens que se haviam conhecido naqueles dias quentes e ensolarados.
As conversas desse casal foram ficando cada vez mais próximas, quase sussurradas. De frente um para o outro, a distância que os separava era a de exatos dois narizes. O único impedimento a uma maior aproximação era, muito provavelmente, apenas uma certa insegurança do menino.
Uma raiva súbita caiu sobre aquele pai, enevoando-lhe a mente, ainda que por alguns instantes. Enciumado, por muito pouco não foi até lá e, sob uma alegação qualquer, pôs fim àquilo tudo. Não custaria nada encontrar alguma falha na conduta do menino (afinal, era um adolescente) e lhe impôr, como pena, que não voltasse mais à piscina nos próximos dias. Estaria tudo resolvido… Mas, houve-lhe, ainda, discernimento suficiente para perceber a insensatez desse seu impulso. Compreendeu que seu filho já se estava tornando um rapaz, um belo exemplar da espécie, por sinal, e que este apenas atendia a um processo natural de crescimento, amadurecimento e emancipação.
Deu-se conta, então, de que esse seu filho já não era mais seu filhinho, uma criança que brincava com bonecos, rolando pelo tapete da sala, ou chorava com medo do escuro. Já não era mais tão seu assim. Logo estaria saindo de casa para tentar o próprio caminho, a própria busca.
Viu ainda, que o tempo passa sempre muito mais rapidamente do que se pode perceber…
Nesses dias que se passam, após sete anos de constantes e ininterruptas lutas e pressões, sem poder desfrutar do relaxamento só possível aliado à despreocupação, entreguei-me à mais descarada preguiça. Um ócio vadio, impudico, irresponsável, à beira do absurdo.
Não sei que dia da semana é hoje e muito menos a data.
Passei horas e horas, durante algumas das tardes ensolaradas destas férias, sentado em uma das poltronas da sala, apenas admirando, pela janela escancarada, o leve balanço das folhas e ramos daquela pitangueira. Namorando longamente minha pitangueira, tão frondosa, exuberante e verdejante; onde sabiás e pardais festejam as delícias da vida liberta, longe dos grilhões e caos da civilização.
Permiti-me até cochilar em uma ou duas tardes, coisa que, nos últimos vinte anos, poderia ser contada apenas, e com sobras, usando-se os dedos da mão direita.
Não li nada, não estudei nada, não trabalhei em nada. Também não escrevi quase nada…
Sem alimentar e exercitar meu cérebro, posso até senti-lo atrofiando e murchando lentamente, sendo asfixiado com o auxílio do enxurro imbecilizante das programações televisivas.
Por muitas vezes tentei, mas, desta vez, ao menos um pouco, parece, consegui deixar de lado o sentimento de culpa…
E nem sei se isso é bom ou não.